2009/11/03

Curso de alfabetização na Escola de Miragaia foi notícia no JN

"Não sabia letra nenhuma"

Curso de alfabetização na Escola de Miragaia junta sobretudo alunos dos 30 aos 55 anos

2009-11-01

HERMANA CRUZ

A maior parte tem entre 30 a 55 anos. O desemprego foi o impulso para assumir o que poucos têm coragem de fazer: não saber ler ou escrever. Agora que voltaram à escola e fizeram alguns progressos, já ousam em sonhar numa vida melhor.
Uns querem ser pintores, outros técnicos de informática ou simplesmente esperam conseguir tirar a carta de condução. Contudo, em todos há um ponto em comum: uma imensa força de vontade em aprender e dar uma reviravolta nas suas vidas, ao ponto de Henrique Soares ir muitas vezes para a escola, sem dormir, depois de uma noite inteira no mar.
Tal como a maior parte dos 60 alunos que integram as quatro turmas do curso de alfabetização da Escola de Miragaia (Porto), Henrique só conseguiu fazer a segunda classe. Tinha 13 anos quando começou a trabalhar na construção civil. Há dez anos, tornou-se pescador. Mas o emprego está em risco. "Tenho até ao Natal que ter a quarta classe para tirar a licença para ir para o mar", explica, com ar determinado e ao mesmo tempo orgulhoso dos feitos alcançados em pouco mais de um mês: "Já leio um pouco e tenho uma letra que parece de doutor. Linda!".
Marco Antunes também foi para a construção civil aos 13 anos. Fez apenas a primeira classe. "Não sabia letra nenhuma", admite. Agora, com 29 anos, já tem três objectivos bem definidos: "Quero tirar a quarta classe, um curso de informática e a carta de condução", revela, em tom resolvido.
Ao lado, Ana Oliveira, de 37 anos, também tem um sonho: ser pintora. Tal como Marco e Henrique, começou a trabalhar aos 13 anos, num restaurante. Nem a primeira classe conseguiu concluir. O amor pela pintura surgiu durante os 14 anos em que trabalhou numa fábrica a pintar bonecas. Pinta a toda as hora e já fez várias telas. Por isso, quando no centro de emprego lhe perguntaram o que queria fazer nem hesitou. "O que queria mesmo era aprender a ler e a escrever", respondeu.
Apesar de estar há pouco mais de duas semanas na Escola de Miragaia, Ana já fez progressos impressionantes. "Nem conseguia juntar duas letras. Agora, já faço isso", sublinha, com regozijo.
"Eu até escrevo bem e leio. A minha dificuldade está na matemática, em fazer contas", contrapõeLuís Miguel, que ainda fez a quarta classe, mas "mal feita". É pedreiro desde que saiu da escola. Mas está desempregado e também gostava de conseguir uma ocupação melhor. "Espero por isso tirar o 12º ano", explica, garantindo: "Vou até ao fim, não desisto!".
Embora não seja o caso de Henrique, Marco, Ana e Luís, a maior parte dos alunos do curso de alfabetização sempre tiveram vergonha em assumir que não sabiam ler e escrever. Por isso, socorriam-se de uma estratégia muito comum quando iam às compras: pediam ajuda para ler os preços, alegando não ter os óculos.
"Costumo ir à missa em Miragaia, uma vez o padre chamou-me para ir ler e eu também disse que não tinha os óculos", conta Maria Aurelina Lourenço, com 79 anos. Apesar disso, manteve durante 48 anos um negócio. "Tinha um pomar e contas eram comigo", diz. Só que a perseguia a mágoa de não saber ler ou escrever. "Já consigo identificar o remetente das cartas e ver os preços", destaca, assegurando que não voltará a fugir à escola como fazia na infância: "Vou aprender até morrer!".
Se Aurelina é a aluna mais pontual, Maria Silva, de 55 anos, é a maior impulsionadora da iniciativa. "Sempre tive tristeza por não saber ler ou escrever. Sabia fazer letras mas não as conseguia juntar", refere, fazendo-se porta-voz dos colegas ao destacar que o melhor de tudo é "o convívio".